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O II Encontro da Igreja na Amazônia Legal

Data de Publicação
28
2016
11
Segunda-feira
08h10
28 de Novembro de 2016 08h10

14 a 16 de novembro de 2016

Escrito por Padre Antônio Mendes
Diocese de Criciúma, SC, Igreja Irmã da Prelazia de Cristalândia-TO

 
Éramos 50 bispos, 12 padres, um diácono, 11 leigos, leigas e três religiosas. Reunidos na casa de retiro Monte Tabor, da comunidade de vida Sementes do Verbo, em Iguaraci, Belém do Pará. Foram três dias de convivência, partilhas, reflexões, estudos, trocas de ideias, oração e missa diária. Os trabalhos realizados com muita animação, com refrãos musicais a cargo da inspiração de cada coordenador/condutor da sessão. O ambiente, por si só, fazia-nos sentir a presença de Deus. Jesus Eucarístico exposto e adorado, permanentemente, nos recordando que ali estava o dono, o motivo, a causa da missão na Igreja da Amazônia legal.
 
Os religiosos residentes e responsáveis da casa, em constante atitude de serviço, se doavam a todo tempo para nos fazer sentir bem acolhidos, bem servidos, desde a chegada ao local, hospedagem, as refeições, a sala do encontro, etc. Todos sempre atentos e com aquele sorriso de quem tem alegria em servir.
 
Reinava um clima de amor fraterno e afeto filial entre os bispos, padres, leigos, leigas e demais participantes que se expressavam nos sorrisos, nas conversas, nos abraços afetuosos, na escuta. Faziam transparecer muita alegria e satisfação de estar naquele lugar. Eram irmãos de missão se reencontrando, outros ainda se conhecendo, mas a acolhida mútua criava um clima agradável onde não havia diferenças; éramos todos irmãos e irmãs de missão.
 
Participar desse encontro da Igreja na Amazônia foi algo esplêndido, tanto pela riqueza das reflexões e partilhas, pelo conhecimento adquirido, quanto pelas novas amizades e por fazer parte da caminhada dessa Igreja "rica" de dons e carismas.
 
Diante de tudo que vimos e ouvimos, tivemos nossos corações dominados por muitos sentimentos, principalmente de angústia, gratidão e esperança.
 
Permitam-me falar da angústia
Ouvimos as experiências dos missionários e tomamos conhecimento do que a Igreja da Amazônia passa numa terra rica por sua natureza e, ao mesmo tempo, cheia de contradições que revelam pobreza de espírito do ser humano. Região dizimada pela ganância. Famílias expulsas de suas terras. Aumento da pobreza e da criminalidade. As lutas pela vida dos povos indígenas, dos ribeirinhos, das pequenas comunidades, das periferias. As dificuldades dos missionários provindos dos diferentes Estados e Regiões. Pais e mães de família que se doam por um tempo para servir a Igreja em suas necessidades. Filhos e filhas consagrados que deixaram sua terra, família, diocese e a própria segurança para trás por amor aos pequenos e o fazem com alegria, mas sente-se cansados de lutar sem apoio. Leigos e leigas que assumem a causa dos pobres com suas cabeças colocadas a prêmio; vivem na insegurança, mudando de endereços para confundir o inimigo e preservar a própria vida. O objetivo principal é levar a diante os projetos de defesa da terra, da natureza e do seu povo original. Enfrentam o dia de hoje, ignorando se no amanhã que virá ainda estarão de pé. Para chegar aos locais de difícil acesso, empreendem longas jornadas em estradas de chão, dias e noites ou atravessam rios em pequenas e frágeis embarcações para ser Igreja solidária e misericordiosa onde os clamores bradam aos céus.
 
Permitam-me falar da gratidão
Gratidão por essa Igreja que não age conforme o conselho dos maus e nem vai sentar-se na mesa dos zombadores, mas encontra seu prazer na lei do Senhor e a medita dia e noite (Sl 1, 1-2). Igreja que vê o sofrimento, ouve os clamores, sente as dores de tantos homens e mulheres, crianças, jovens, idosos e se torna sua voz; Igreja de carismas onde o Espírito Santo age chamando e enviando; Igreja onde os leigos conquistam espaço pela competência, pela ousadia e paixão às causas do Reino; homens e mulheres apaixonados pelo Evangelho, motivo que os faz ignorar as ameaças de morte, enxugar as lágrimas e continuar lutando pela paz e a justiça. São heróis, são filhos, são fiéis que vencem as próprias limitações, enfrentam as próprias fraquezas e perseveram, sendo pontos de luz onde as sombras da morte tentam avançar; dão testemunho de fé encarnada, não teórica nas suadas conquistas. É pela resistência de tantos agentes evangelizadores que a Igreja faz sua história nesse chão. Igreja de mártires, homens e mulheres, que derramaram seu sangue em missão na defesa dos pobres; Igreja que se renova na acolhida do chamado e no sim generoso dos sucessores dos apóstolos. Valorosos bispos titulares, auxiliares e eméritos, cuja simples presença já é um testemunho valioso. Nossos bons pastores, homens que questionam, propõem medidas baseadas nas Escrituras, nos documentos da Igreja, nas encíclicas, procurando contextualizar no tempo presente para tornar realidade o que os documentos nos propõem. No coração de cada um ecoam os gritos dos pobres que buscam o apoio da Igreja. Gratidão a essa "Igreja em saída" que, com bravos agentes enfrenta e intermedia conflitos no campo, na selva e nas periferias das grandes cidades.
 
Permitam-me falar de esperança
Esperança numa Igreja viva que se faz presente em todos os lugares, enfrentando as intempéries da vida material e espiritual do povo; Igreja que avança na força do Espírito Santo e na boa vontade e coragem de tantos leigos, leigas cuja vocação é ser sal e luz na sociedade; consagrados e consagradas que honram a Igreja com sua fidelidade ao evangelho conquistando a confiança das comunidades, dos grupos e tribos. Esperança numa Igreja com portas abertas que, como mãe que é, acolhe, alimenta, perdoa, orienta e envia; prega e distribui a misericórdia, superando as culpas fazendo-os se sentirem participante da comunhão. Igreja alicerçada na Palavra de Deus, fonte que brota do interior do temploe se transforma em rios que levam vida e saúde para as suas margens, produzindo frutos de justiça e paz em abundância para esse povo faminto (Ezequiel 47, 9ss). Esperança numa Igreja que é testemunha da ação do Espírito Santo que age não somente nos doutores, teólogos, filósofos, mestres, mas nas pessoas simples da comunidade. Esperança numa Igreja de mártires. São muitos os mártires na Igreja na Amazônia. Padre Ezequiel Ramin, Irmã Maristela, Padre Josimo, Ir. Dorothy Stang, Ivair Higino João Canuto, irmã Cleusa, Chico Mendes e muitos outros que permanecem no anonimato. Fazem muita falta. Mas, como nos recorda as Sagradas Escrituras: "A vida dos justos está nas mãos de Deus, e nenhum tormento os atingirá. Aos olhos dos insensatos parecem ter morrido; sua saída do mundo foi considerada uma desgraça, e sua partida do meio de nós, uma destruição; mas eles estão em paz. Aos olhos dos homens parecem ter sido castigados, mas sua esperança é cheia de imortalidade; tendo sofrido leves correções, serão cumulados de grandes bens, porque Deus os pôs à prova e os achou dignos de si. Provou-os como se prova o ouro no fogo e aceitou-os como ofertas de holocausto. Os que nele confiam compreenderão a verdade, e os que perseveram no amor ficarão junto dele, porque a graça e a misericórdia são para seus eleitos" (Sb 3,1-6.9).
 
O testemunho desses heróis da fé alimenta, ainda hoje, os ideais dos que ficaram. Eles não têm mais voz para gritar por aqueles que amavam, mas seus gritos continuam ecoando no coração de uma Igreja que não se esconde na sombra dos privilegiados e, sim, que se torna a voz dos abandonados, dos massacrados.
 
O que ficou desse maravilhoso encontro?
A certeza que estamos no caminho certo, mas precisamos melhorar muito. Precisamos abraçar a causa com fé e confiança. Dar mais apoio aos missionários e missionárias, resistir, defender, denunciar, edificar, construir um novo tempo onde reine a paz e a justiça para que se concretize a profecia de um novo céu e uma nova terra.

Cooperação missionárias das Igrejas Irmãs, esperança para a Igreja da Amazônia
 
Depois do ano de 1989, quando foi realizado o último encontro sobre a evangelização na Amazônia, aconteceu de 16 a 18 de novembro de 2016, o encontro cooperação missionária e Igrejas irmãs em Belém do Pará. Ou seja, 27 anos depois. Estávamos em 56 bispos, 26 padres, 11 leigos, 2 diáconos e 7 religiosas.
 
No espírito de missão, tínhamos muitas expectativas quanto a realização do encontro. Algumas expressões como: conhecer o projeto Igrejas Irmãs; saber como colaborar com o projeto; a possibilidade de encontrar padres que possam ajudar na diocese; fortalecer os vínculos entre as Igrejas criados pelo projeto. Ou seja, todos nós esperávamos algo de muito bom. Cada representante vindo das dioceses, prelazias e regionais juntos formavam um todo, a Igreja reunida.
 
No resgate histórico do programa Igrejas Irmãs, que depois mudou para o nome de projeto Igrejas Irmãs mostrou o início, as dificuldades enfrentadas, os abundantes frutos dos corajosos pioneiros. Alguns bispos que fazem parte desse projeto desde o início, relataram suas experiências, partilharam o que ficou guardado no coração que o tempo não apagou.
 
Nos grupos, partilhamos as experiências respondendo aos principais questionamentos:
Como surgiu a ideia de assumir o projeto Igrejas irmãs e como se mantém hoje?
O que ele despertou na diocese?
Quais os desafios?
O projeto deve continuar?
 
Acompanhamos uma partilha riquíssima da realidade missionária da nossa Igreja. Em cada diocese ou prelazia, o início do projeto brotou no coração de alguém que viu a realidade dura do povo e viu na proposta um jeito de ajudar. Bispos ou padres, que viram naquelas ações algo do Espírito Santo e sugeriram como proposta para sair da crise da Igreja particular. Tiveram também iniciativa própria, louvável atitude pela boa intenção, mas o resultado não foi muito além porque não terem envolvido mais pessoas. Algumas dessas iniciativas foram muito bem por um tempo, mas morreram no caminho por falta de apoio; outras continuam até hoje dando bons frutos para a Igreja. Despertou novas lideranças leigas para as atividades missionárias; cresceu a consciência de que devemos ser uma Igreja missionária para sermos Igreja de fato; surgiram vocações locais pela presença dos missionários; comunidades bem formadas; convivência harmoniosa entre clero local e os missionários; amizades conquistadas que ainda hoje, mesmo depois do fim do projeto, continuam em comunicação; envio de padres, seminaristas, leigos e leigas; dioceses que não podem enviar padres enviam ajudas financeiras para colaborar na formação das lideranças locais e rezam pelas dioceses irmãs e seus bispos. Iniciativas interessantes como a criação do Dia da Igreja Irmã, com uma coleta anual para as áreas missionárias, etc.
 
Surgiram muitas dificuldades...
 
Dificuldades internas, isto é, no campo de missão: o clima muito quente com os qual os missionários não estavam acostumados; a alimentação que alguns não conseguiram se adaptar e, por questões de saúde, precisaram voltar para casa. Os costumes religiosos do povo, suas crenças, rezas devocionais diferentes ou desconhecidas da cultura dos missionários. Trabalho paralelo, isto é, sem sintonia com os projetos, sem comunhão com a Igreja local. O isolamento dos que foram para a missão. Longe do seu presbitério, da sua família, amigos, ainda convivem com a angústia de não serem procurados pelos seus, não receber se quer uma ligação dos irmãos presbíteros, do seu bispo, demostrando pouco interesse; fica uma pergunta no ar: o envio de um padre ou leigo, seminarista para áreas de missão, é um ato de amor pela Igreja que sofre a carência da evangelização ou é apenas um desencargo de consciência de alguns bispos ou um querer livrar-se de um problema interno?
 
Dificuldades externas, isto é, fora do campo de missão. Formar a consciência no clero local para que haja maior abertura da diocese para a dimensão missionária. Que seja uma decisão de toda a diocese, não somente do bispo. Os leigos e leigas são mais abertos para esse ideal, mas eles não são tão bem aceitos em algumas dioceses que só desejam receber padres. A estrutura da Igreja; a deficiência na formação dos missionários e missionárias; distanciamento dos seminaristas que já deveriam ser formado nesse espírito de missão. Padres que não se sentem missionários.Se não somos Igreja missionária, nem Igreja somos. A missão precisa de uma dinâmica organizativa que tenham critérios de envio.
 
Questionamentos:
Quem deve se preocupar com a manutenção da missão?
É justo uma diocese receber tudo e não contribuir com nada?
Não seria educativo e mais produtivo comprometer a comunidade local na manutenção dos missionários?
Como ter uma ação organizada e bem articulada diante dos avanços do neopentecostalismo, cujo objetivo é protestantizar a Amazônia?
 
Por fim, fomos unânimes que o projeto deve continuar, mas precisa que a Igreja faça uma revisão e modifique algumas coisas levando em consideração esses desafios apresentados.


Conclusões
O testemunho de bispo, padres, religiosas e leigos que assumiram o projeto Igrejas irmãs afirma que este projeto enriquece a missionariedade da Igreja. O compromisso é evangelizar para construir o Reino de Deus. Por sua fidelidade ao Evangelho a Igreja sofre perseguições e sente-se limitada, mas segue na força do Espirito Santo. É a missão que sustenta a Igreja. Os locais onde a Igreja não se faz presente rapidamente são ocupados por outras denominações religiosas que fazem proselitismo e não evangelização.
 
A ação missionária da Igreja é sua resposta aos inúmeros pedidos de socorro que vem das comunidades, famílias, fiéis que vivem soterrados na opressão. Mas o trabalho missionário é dispendioso; custa muito caro pra Igreja local conseguir barcos, carros, ônibus ou qualquer outro meio de locomoção para deslocar os agentes e poderem participar de formação ou realizar uma ação em nome da Igreja em apoio aos indígenas que lutam por suas terras, suas culturas, sua gente; os ribeirinhos desassistidos na luta pelos seus direitos; os assentados esperando receber seu pedaço de chão; os pequenos agricultores expulsos de suas terras e roubados em seus direitos. Homens e mulheres humildes que vivem do seu trabalho árduo. Os que atuam nessas áreas, padres, religiosas ou leigos, não tem uma vida fácil. Na maioria das vezes são tratados como criminosos e tem suas cabeças colocadas a prêmio.
 
Mas a esperança da Igreja na Amazônia está no projeto de Igrejas Irmãs. Desejamos que todas as dioceses façam parte desse sonho e possam colaborar assumindo outra diocese ou prelazia como irmãs para enviar missionários e missionárias. Que São Francisco Xavier e Santa Terezinha intercedam pela Igreja da Amazônia.