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Entrevista: Monge natural de Içara fala sobre a vocação à vida monástica

Data de Publicação
18
2017
07
Terça-feira
09h31
18 de Julho de 2017 09h31

Entrevista com Dom Samuel, monge beneditino, natural de Içara (SC), residente no Mosteiro da Transfiguração em Santa Rosa (RS), feita por Pe. Antônio Mendes, Pároco da Paróquia Santo Antônio de Pádua - Sombrio.
 
A Igreja é muito rica em dons e carismas. Em seu seio, ela abriga um grande número de congregações religiosas que vão desde o trabalho pastoral, inseridas nas comunidades, nas instituições de ensino e em projetos sociais, até as de vida contemplativa. Acreditamos serem, elas, obra do Espírito Santo, que suscita vocações conforme as necessidades do povo de Deus. A vocação monástica, contudo, é uma grande riqueza espiritual que há mais de 1500 anos vem alimentando a Igreja pela entrega silenciosa dos monges. A poucos dias, especificamente do dia 06 ao dia 11 de julho, a Paróquia São Donato, de Içara, viveu dias de muitas bênçãos com a presença da comunidade monástica do Mosteiro da Transfiguração, por motivo da ordenação sacerdotal de um de seus filhos. Aproveitando tão significativa oportunidade, estive com ele na casa de seus pais para uma conversa agradável que revelou espiritualidade e sabedoria, ou uma sabedoria espiritualizada. Transcrevo abaixo suas respostas para algumas perguntas que fiz a Dom Samuel Domiciano Ricardo, neo presbítero da ordem monástica referida.

1 - Quem foi São Bento?
São Bento foi um jovem italiano que buscou a vida monástica mais ou menos pelo ano 480.  Estava um pouco desiludido tanto com a forma que viviam os cristãos de sua época como pelas questões políticas. Ele viveu a época das invasões bárbaras em Roma. Decidiu abandonar os estudos do Direito e viver a vida monástica, numa gruta, em Subiaco. A partir de então, as pessoas descobriram aquele homem que vivia no deserto, na gruta. Com a fama de santidade adquirida com o tempo, foi atraindo muitos jovens em busca de aconselhamento, os quais passaram a viver a mesma espiritualidade do glorioso Patriarca São Bento. Com isso, fundações monásticas foram surgindo em locais em torno de Roma. Bento fundou, nestes locais, o total de doze mosteiros que, por sua vez, foram transmitindo a Tradição monástica e se espalhando por todo o mundo. No Brasil há mais de 50 mosteiros. 
 
2 - O surgimento do Mosteiro da Transfiguração
O Mosteiro foi fundado por Dom Cristiano Collart, OSB, em 15 de agosto de 1996, em Santo Amaro (SP). Dom Cristiano é monge beneditino nascido na Bélgica. Em 1999, a convite de Dom Estanislau Amadeu Kreutz, bispo de Santo Ângelo (RS), o mosteiro veio para Santa Rosa (RS), já que em sua diocese possuía um mosteiro construído, porém vazio. Estamos em Santa Rosa há 17 anos. O Mosteiro da Transfiguração é pertencente à ordem beneditina, fundada por São Bento. Esta ordem existe há 1500 anos. Atualmente, somos uma comunidade de 18 monges, sendo que 10 já professaram os votos definitivos e os demais estão em processo de formação de sua caminhada vocacional. 
 
3 - Quem foi Isaac Domiciano Ricardo?
Foi uma criança e um jovem que viveu buscando a vida cristã, através da catequese e depois pelos grupos de jovens. Porém, antes disso, tive uma vida cristã no seio familiar, com meus pais e irmãs que davam esse testemunho cristão. Procurei viver isso na companhia da família. Na infância, tímido, muito calado, reservado, paciente e tranquilo na convivência com os amigos e na escola. Com muita tranquilidade naquilo que fazia e vivia, tanto na escola quanto em casa, com a família. Na Igreja, começou a frequentar o grupo de jovens. 

4 - Como você encontrou o mosteiro, como ficou sabendo da sua existência?
A primeira vez que ouvi falar do Mosteiro da Transfiguração (onde estou), eu estava no Seminário de Caravaggio. Meu amigo Maicon comentou sobre a experiência que fez num retiro promovido pelo Renasem nas dependências da hospedaria do mosteiro. Ele chegou falando do mosteiro pra mim e percebi que eu me identificava muito com aquilo que ele partilhava, que ia de encontro com minha personalidade, com meu jeito de ser, que aquele era meu estilo, a "minha cara". Mais tarde, também, ouvi o padre Eloir falar do mosteiro, e por fim comecei a manifestar meu interesse pela vida monástica, conversando com meu orientador espiritual, padre Oscar. Falei a ele do meu desejo de fazer uma experiência monástica, mas continuei mais um tempo no seminário para discernir melhor. No seminário da Diocese fui muito feliz, mas creio que Deus me chamava e queria algo além da vida diocesana. Antes, porém, de conhecer o Mosteiro da Transfiguração, fui conhecer outro mosteiro para saber se era isso mesmo que desejava. Conheci primeiramente o Mosteiro Trapista, no Paraná. Então decidi sair do seminário, onde cursava Filosofia, e ir trabalhar um pouco em casa, no comércio da cidade de Içara. Foi no fim de 2004 que conheci o Mosteiro Transfiguração.
 
5 - Como você descobriu a vocação monástica?
Eu não conhecia a vida monástica, porque não há mosteiro masculino em Santa Catarina. Descobri a partir de amigos que falavam. Ao buscar e aprofundar a vocação, me identifiquei e gostei. Creio que Deus utilizou esse meio, o seminário, para que eu encontrasse a vida monástica. Decidi dar esse passo, acreditando que era esse o meu caminho, a minha vocação. Abandonei-me, literalmente, nas mãos do Pai. O ritmo de vida, o silêncio, a contemplação, a oração, a meditação, se enquadravam melhor com a minha pessoa e meu jeito de ser. O trabalho que é realizado com mais silêncio, mais reserva com as pessoas, com os hóspedes do mosteiro, tudo isso me encantou muito.
 
6 - Como se dá a formação do monge?
Quando chegamos ao mosteiro, temos um longo período de formação, que é o postulantado, o noviciado e, depois, mais três anos de profissão temporária e, por fim, os votos definitivos, os "Votos Solenes". Nesses seis anos aprofunda-se muito a vida do fundador, São Bento, e sua espiritualidade. Um período longo de formação sobre a regra de São Bento e da liturgia, pois a vida monástica vive em torno da liturgia, do Ofício Divino, que é a Oração das Horas, e principalmente, da missa.

7 - Todo monge pode ser ordenado padre, se ele quiser?
Sim, se o irmão tem vocação sacerdotal pode ser ordenado. Antes, porém, é feita uma consulta aos conselheiros do mosteiro para saber o que acham. Às vezes se pergunta aos membros da comunidade. Embora a opinião de mais peso seja a dos conselheiros. A última palavra é do superior da casa. 
 
8 - Quem é Dom Samuel e quais as características de Isaac que permanecem em Dom Samuel?
Bom, diferente daquela pergunta feita um pouco antes, Dom Samuel tornou-se uma pessoa mais amadurecida, já perdeu bastante a sua timidez, é mais seguro no que faz, decidido, hoje se sente mais tranquilo diante do público a falar. Hoje assume as suas funções na Igreja com tranquilidade. Porém, ainda possui características do "Isaac", não deixou de ser a mesma pessoa. A troca do nome significa ser homem novo, mas tem coisas que fazem parte da essência e isso nem sempre muda. 
 
9 - De tudo que existe na vida monástica, o que mais te encanta?
A disciplina do monge em relação aos horários, o compromisso das orações, o Ofício Divino e a missa. A vida do monge é muito regrada, vivida em torno do Ofício Divino. A vida monástica é conhecida como "ora et labora", que é oração e trabalho. Porém, o essencial do monge é a vida de oração, esta é o centro de suas vidas, por isso eles se encontram em oito momentos para rezar no coro monástico, todos os dias. Depois é que vem o trabalho. Então a vida do monge está em torno de tudo aquilo que é vivido na Igreja, a partir da Igreja. Todos os dias nós temos que estar lá, no coro, em oração. A vida comunitária é outro aspecto que me encanta. Ela é diferente da vida diocesana, até mesmo do padre religioso, ou do frei de vida apostólica, que vivem em comunidade, mas no dia a dia, tem trabalhos individuais. Nós não. Nosso trabalho, na vida monástica, é sempre junto. Grande parte do dia nós estamos juntos no trabalho manual, trabalho no jardim, na hospedaria. Tudo isso me encanta na vida monástica.
 
10 - As características físicas do monge também são sinal de desapego para os outros?
A intensão da vocação monástica é que esta seja um testemunho na sociedade de que muitas coisas que buscamos em nossas vidas são supérfluas. A sociedade cobra muito a aparência, o externo, esquecendo-se da beleza interior. O monge é alguém que tenta buscar uma vida simples, sem vaidades. Por isso raspa o cabelo em vez de cuidar dele. Dentro do mosteiro o monge usa o habito monástico, que é uma túnica preta. Essa é uma forma de dar testemunho de uma vida simples e de que a gente vive pelo essencial, Deus. Muitas vezes, na sociedade, podemos esquecer d'Ele. Acaba-se trocando e dando mais valor ao dinheiro, às coisas, aos objetos e não ao verdadeiro Deus. Nós, monges, também precisamos do dinheiro para sobreviver, para manter a casa, as estruturas, como qualquer outra pessoa, também trabalhamos com nossas próprias mãos, para tal fim. Porém, não é o mais importante. O importante é Deus. O monge trabalha para adquirir o dinheiro para manter as coisas. Tem a hospedaria que é uma fonte, os trabalhos artesanais outra fonte, as plantações em volta do mosteiro é outra fonte de renda. O trabalho é também oração na vida monástica. O lema da vida monástica é ora et labora porque o trabalho é visto como um ato de oração. O monge durante o dia precisa saber parar e estar com Deus. Muitas vezes, durante o dia, paramos o trabalho para rezar, se dedicar a Deus. Essas coisas simples que o monge faz, desde o trabalho, a sua veste, a tonsura, a maneira de se comportar, o silêncio é para mostrar ao mundo que o essencial é Deus.
 
11 - Desde que você entrou no mosteiro até a sua ordenação, quais foram as principais dificuldades?
Quando cheguei, minha primeira dificuldade foi minha família, que não entendia muito da vocação monástica. Eles e nem eu mesmo sabíamos muito da vida monástica. Aquilo me encantava e eu sentia que ali estava o meu caminho, minha vocação, por isso busquei. Fui firme na minha decisão. No primeiro momento, foi um impacto muito grande para eles. Esta foi minha primeira dificuldade, ver que eles tinham saudades, não entendiam, e eu também sentia saudades... E sinto até hoje, é normal. Quando fazia quatro meses que eu estava lá no mosteiro eles foram me visitar "com a intenção de me trazer de volta", ao menos, pareceu. Mas a minha felicidade falou muito mais alto e me fez ficar com os pés firmes, bater no chão, e dizer que lá era o meu lugar. Disse: "Estou feliz e não vou sair daqui". Depois, em segundo lugar, tivemos algumas dificuldades na comunidade como qualquer família religiosa, seja a nível material e às vezes espiritual e comunitário. O mais difícil é quando algum membro descobre não ser a sua vocação e vai embora, os laços de amizade são construídos, e de um momento para outro é desfeito. Mas às vezes são necessárias algumas saídas pelo fato de que todos nós temos um lugar e vocação na Igreja. E o importante é buscá-la e respondê-la.   
 
12 - Como é ter a vida regida pelo badalar dos sinos?
Eu gosto muito. Os sinos, para muitos santos, são a voz de Deus a chamá-los para a oração. Então, para nós, no mosteiro, vemos o sino dessa forma. Todas as vezes que o sino toca, eu ouço como se Deus estivesse me chamando para as orações. Mesmo às 5h da manhã, até a última, que é às 20h30min. Sempre que o sino toca, é Deus que me chama. A comunidade é reunida por esta voz. 

13 - Esse tempo que vocês ficaram aqui, pela sua ordenação, vocês trouxeram o mosteiro para cá, deixaram a vida reclusa, o silêncio, etc. Exigiu muito de vocês. O que ficou marcado?
Primeiramente, não é algo comum de todos os monges sair do mosteiro ao mesmo tempo. Mas foi algo bem positivo para cada irmão, individualmente, de vir beber de uma realidade diferente, Estado diferente, diocese diferente. Todos ficaram bem impactados pela participação das pessoas nas comunidades, também o acolhimento das pessoas, o contato físico e o afeto do povo. Ficou muito marcado para eles e até para mim, já que me encontro quase 13 anos fora da cidade natal e da diocese. Nós estamos numa região onde a Igreja carece da participação do povo. Em Santa Catarina é muito forte a participação. Os irmãos ficaram muito encantados com a acolhida do povo içarense.
 
Conclusão
Ao concluir esse breve relato, recolho-me, em oração, agradecendo a Deus a maravilhosa oportunidade de ter conhecido esses homens de Deus que são "uma força de choque" na busca de santificar a sociedade com seu testemunho de vida, de oração e silêncio. Desejo que Deus continue abençoando a comunidade monástica do Mosteiro da Transfiguração. Que o Senhor continue chamando mais jovens e desperte muito mais vocações em nossa Igreja.
 
São Bento, rogai por nós! 
 
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