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CF 2017: Dos seminários diocesanos às práticas cotidianas

Data de Publicação
29
2017
06
Quinta-feira
10h17
29 de Junho de 2017 10h17

Escrito por Prof. Msc. José Carlos Virtuoso, com orientação do Prof. Dr. Carlyle Torres Bezerra de Menezes
 
A sensibilização e a adoção de medidas concretas sobre a urgente necessidade de atitude perante o cuidado com a Casa Comum foram enfatizadas durante os estudos diocesanos da Campanha da Fraternidade 2017- com o tema "Fraternidade: Biomas Brasileiros e Defesa da Vida" e no lema "Cultivar e guardar a criação" (Gn 2,15). Realizados em dois encontros, em Criciúma e Turvo, trabalhou-se de acordo com a metodologia proposta pela CNBB, vivenciando-se três momentos: o "Ver", o "Julgar" e o "Agir". Os dois primeiros momentos foram desenvolvidos no período da manhã, ficando o terceiro para a parte da tarde, quando se trabalhou em grupo, por paróquia. Nesta última etapa, houve a oportunidade para as comunidades, à luz da sua realidade, problematizar e apontar possibilidades de intervenção para as questões levantadas, de forma participativa.

Em sintonia com a literatura científica que a temática socioambiental exige, e com a encíclica Laudato Si, do Papa Francisco (2015), buscou-se trazer à tona os principais problemas referentes aos biomas brasileiros - Amazonas, Cerrado, Caatinga, Pantanal, Mata Atlântica e Pampa. Todos ricos em biodiversidade e seriamente ameaçados pelo atual modelo econômico, que degrada a natureza e põe em condição de submissão os ecossistemas, os povos indígenas e demais populações tradicionais. Aqui, em especial, no momento do Ver, destacou-se o bioma local, o da Mata Atlântica, que atualmente apresenta somente 12,5% da sua cobertura vegetal original. O desmatamento intensivo, com o avanço dos processos desordenados de urbanização, a falta de tratamento adequado dos resíduos sólidos e do esgoto doméstico, as práticas inadequadas na agricultura, com uso abusivo de agroquímicos e o consequente empobrecimento do solo e o risco à segurança nutricional, a poluição dos rios e o comprometimento de grande parte dos recursos hídricos são alguns dos principais problemas a serem enfrentados.

Dentro da realidade dos biomas (que são todas as formas de vida presentes nestas áreas, animais, plantas, incluindo os elementos físicos como os solos, que formam os ecossistemas) também se tratou de forma destacada a necessária valorização do conhecimento das populações tradicionais, conforme orientação do texto-base da CF-2017. Afinal, são os povos indígenas, as comunidades quilombolas, as populações ribeirinhas, entre outros atores sociais, os responsáveis pela rica produção de um saber e um fazer alinhados aos conceitos de cuidado com o meio ambiente, levando em conta a condição de interdependência. Estes aspectos estão na base do que é conceituado como um novo modelo de desenvolvimento, denominado de ecodesenvolvimento territorial solidário.

Interdependência foi palavra-chave na sequência da atividade, no Julgar. Neste momento, propiciaram-se subsídios para a compreensão de como os diversos elementos da natureza cumprem funções de retroalimentação entre si. O desmatamento sem critérios, por exemplo, pode comprometer a qualidade do ar, pela filtragem que realiza deste elemento fundamental à vida. Afastar os insetos polinizadores que garantem a produção na agricultura e degradam o solo que, sem cobertura vegetal, fica suscetível de erosão, com a terra sendo carreada para os rios pela chuva, deixando-os assoreados. O desmatamento altera igualmente os ciclos de chuva, pela perda da umidade, provocando estiagem. Com menos árvores, as cidades ficam mais quentes, necessitando cada vez mais do uso de climatização com consequente aumento de consumo de energia.

Sendo interdependentes, os ecossistemas que compõem os biomas funcionam de maneira entrelaçada, produzindo água limpa, ar limpo, umidade e outros serviços ambientais. A sua degradação está comprometendo a qualidade do ambiente de vida e cada vez mais precarizando as condições de sobrevivência da sociedade humana e dos seres não humanos. Esta situação representa um grande custo socioambiental, com prejuízo que recai sobre a economia. Recuperar o meio ambiente degradado, por meio de intervenção tecnológica, representaria um custo anual de 33 trilhões de dólares, segundo o economista estadunidense Robert Costanza (2010). Não há dinheiro no mundo que pague o que recebemos da natureza, como dom gratuito de Deus. No entanto, no mundo da lógica econômica em seus efeitos colaterais da exclusão social e produção de desigualdades, os mais prejudicados são os pobres.    Neste sentido, o comprometimento dos recursos naturais pode representar a perda de até 80% da sua renda, conforme alerta do economista indiano Pavan Sukhdev (2010).

Levando em conta o cenário geral apresentado na parte da manhã, no momento do "Agir" no período da tarde, os participantes foram convidados para compor grupos, sendo distribuídos por comunidade paroquial. A partir deste instante, buscou-se a aplicação de uma metodologia participativa, com base nos métodos utilizados nos movimentos sociais, o DRP (Diagnóstico Rural Participativo), que busca valorizar a experiência das pessoas nas suas comunidades, a partir das realidades que vivenciam, para identificar os problemas e indicar possibilidades de intervenção futura. As dinâmicas adotadas foram o "Muro das lamentações", quando os grupos indicaram os seus principais problemas socioambientais, e a "Árvore dos sonhos", em que apontaram possíveis ações e como realizá-las.

Na primeira parte, houve muito a se lamentar pelos aspectos indicados. No encontro de Criciúma, foram apontados vários problemas como a poluição dos rios, como o Criciúma e o Mãe Luzia, entre outros, contaminados por esgoto doméstico e pelos metais pesados associados às substâncias químicas tóxicas oriundas da mineração de carvão e que são responsáveis pela degradação de mais de 2/3 dos rios da região. A supressão da mata ciliar e o uso de agrotóxicos, contribuindo para a degradação, juntamente com o desmatamento de áreas para loteamento, com o comprometimento de nascentes, incluindo ainda o descarte inadequado de resíduos sólidos no ambiente. Todos estes problemas estão associados ao individualismo, à falta de ética e de ação coletiva em defesa da qualidade do ambiente de vida e de cidadania. Como expectativas, indicadas na "Árvore dos Sonhos", foram apontadas várias situações que contribuam para a reversão do quadro problemático, adotando-se como medidas a mobilização social, com a participação das paróquias, com a formação de grupo permanente da diocese para discutir a temática; a participação em conselhos e órgãos colegiados nos municípios para contribuir à formulação de políticas públicas, e promoção do tema junto às câmaras de vereadores e associações de moradores, dentre outras possibilidades.

Na cidade de Turvo, durante a dinâmica do "Muro das Lamentações", alguns aspectos levantados foram comuns a Criciúma, com especial ênfase para a questão do uso indiscriminado de agrotóxicos e o risco à saúde e a contaminação ambiental. A extração de argila, muito comum na região do extremo Sul catarinense, e a consequente degradação do solo e prejuízo aos rios, com o assoreamento de seus leitos, foi outro problema identificado. Da mesma forma, foi apontada a falta de consciência sobre o tratamento a ser dispensado aos resíduos sólidos e a ausência de coleta seletiva. Durante a dinâmica da "Árvore dos sonhos", as possibilidades sinalizadas tiveram igualmente convergência com as de Criciúma, destacando-se a sugestão de se buscar maior participação da comunidade nos conselhos para fortalecer o controle social e contribuir na elaboração de políticas públicas voltadas à área ambiental. A criação de ONGs (Organizações Não Governamentais) para trabalhar em defesa da vida e a participação efetiva das paróquias com ações concretas foram outros dois aspectos citados como iniciativas à superação dos problemas socioambientais. Ainda no contexto do "Agir", o texto-base da CF aponta questões mais abrangentes que as comunidades devem ter como referência e motivação, no sentido de buscar ações e gestos concretos voltados à resolução dos graves problemas socioambientais que ameaçam todas as formas de vida nos biomas brasileiros. Assim, algumas questões são apontadas como fundamentais e, nesta direção, o texto propõe "que sob o cuidado daquela que amou incondicionalmente a vida, devemos rogar a Deus para nos encorajar com sabedoria, ética, benção e responsabilidade social o cuidado da vida e da criação, que no planeta está ameaçada, e assim, junto com todos os povos, ecoar o nosso grito à sociedade brasileira e ao mundo que os biomas pedem socorro".

  1. Dentre as ações que são destacadas no texto-base, encontram-se as seguintes:
  2.  
  3. Despertar para a beleza dos biomas e a necessidade do cuidado.
  4. Fortalecer as redes, articulações, em todos os níveis, como as melhores formas de suscitar uma nova consciência e novas práticas em defesa dos ambientes essenciais à vida;
  5. Defender o desmatamento zero para todos os biomas e a sua recomposição florestal, particularmente das áreas de preservação permanente, morros, matas ciliares, nascentes, etc.
  6. Incentivar a criação de um projeto de lei que impeça o uso de agrotóxicos.
  7. Fortalecer a ecologia integral, que começa nos pequenos gestos, e precisa se estender para o comunitário, o regional, o nacional e a cidadania global, como nos pede o Papa Francisco na encíclica Laudato Si.
  8. Promover rodas de conversa sobre os malefícios que as queimadas e a poluição urbana provocam nos biomas e na saúde humana.
  9. Valorizar e incentivar a participação dos leigos nos conselhos paritários (Conselhos Gestores, Comitês de Bacias, etc.), para a recuperação dos rios, restauração ecológica, organização de cooperativas de reciclagem, entre outras ações.
  10.  
Por fim, a partir dos estudos diocesanos da CF 2017, espera-se que os participantes sejam multiplicadores das proposições apontadas pela Igreja, à luz da consciência ética, do discernimento e dos ensinamentos do Evangelho, trabalhando em defesa da Casa Comum para "cultivar e guardar a criação".