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Casa do Egresso é abençoada como sinal de esperança aos que retornam à sociedade

Data de Publicação
30
2018
05
Quarta-feira
14h33
30 de Maio de 2018 14h33

Em meio a todo o contexto nacional, uma boa notícia e um motivo de esperança, no Sul de Santa Catarina, com a bênção e inauguração da Casa de Assistência ao Egresso Definitivo da Comarca de Criciúma, na noite de ontem (29). Diversas pessoas participaram da missa que deu abertura à Casa, entre autoridades, benfeitores e voluntários. O Bispo da Diocese de Criciúma, Dom Jacinto Inacio Flach, foi quem presidiu a celebração, que contou com a presença do padre Luís Fernando da Silva, secretário executivo para a Campanha da Fraternidade e membro do Conselho Gestor do Fundo Nacional de Solidariedade da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). A missa também foi concelebrada pelo idealizador do projeto, padre Marcos Henrique Ferreira; pelo coordenador diocesano de pastoral, padre Joel Sávio, e pelo pároco de Jacinto Machado, padre Hélder Benedet. A partir da missa a Casa passou a contar, em sua capela, com a presença do Santíssimo Sacramento.
 
"Com muita alegria estamos aqui, nesta noite, para abençoar esta obra e pedir força e luz para que ela possa crescer e frutificar, e para que aqui sejam realizadas muitas obras de caridade. Muitas pessoas precisam de uma segunda ou terceira chance na vida e esperam que tenhamos um coração aberto para isso. Muitos não estão aqui, mas colaboraram. Esta Casa foi construída para acolher a todos. Se estamos aqui é porque acreditamos na misericórdia de Deus", disse o Bispo, durante sua saudação, no início da missa.

Em sua homilia, Dom Jacinto expressou otimismo ao falar das estruturas físicas e dos trabalhos desenvolvidos pelo sistema prisional no Sul do Estado, ao referir-se aos projetos de ressocialização nas penitenciárias, que dão oportunidade de estudo e trabalho para os reeducandos. "Vejo uma realidade muito diferente daquela que se vê em outros lugares, onde 70% do pessoal trabalha. As pessoas têm possibilidade de ter um futuro; não está lá amontoadas como animais. Sei dos muitos desafios que nós temos, mas também sei das bênçãos", declarou o Bispo, que sempre que pode realiza visitas às unidades prisionais, já acompanhadas semanalmente por equipes da Pastoral Carcerária.

"Nós - autoridades, Igreja e sociedade - todos estamos nos voltando para fazer deste mundo um pouquinho melhor. Deste 'pouquinho', vocês todos participam. Esta casa é uma casa que dá oportunidade. Quando essas pessoas voltam à sociedade, não podemos excluí-las. Temos que acolhê-las e dar oportunidade a elas, porque Deus faz assim conosco. Nós cometemos pecados, mas por que Deus não nos exclui, rejeita ou joga fora? Porque Ele sabe que temos coisas boas em nosso coração e isso tem que crescer e frutificar na sociedade, na Igreja. Se não olharmos assim, como queremos que Deus olhe para nós? Esta casa é mais uma obra para a glória de Deus. Padre Marcos e o grupo tiveram a iniciativa, mas se não tiverem ajuda das pessoas, nada irá acontecer. É uma obra boa que irá beneficiar a nossa sociedade", disse o Bispo.

Para Dom Jacinto, auxiliar uma pessoa a ser diferente ajudará muitas vidas, beneficiando não só a família daquele que cumpriu a pena, mas toda a sociedade para a qual ele retorna. Segundo o Bispo, o papel de todos os batizados e pessoas de boa vontade está também em participar destas iniciativas. "Orgulho-me muito da nossa região. Porque aqui sabemos ser acolhedores, uns com os outros, seja o poder executivo, legislativo, judiciário, as empresas, as pessoas mais humildes, mais simples, universidades, ninguém está fechado. Os meios de comunicação são abertos. Todos nós fazemos parte de uma sociedade em que o bem comum tem que ser sempre visto, a começar por aqueles que são mais indefesos", frisou o epíscopo.

Uma Igreja samaritana

Representando a CNBB, o padre Luís Fernando da Silva, manifestou alegria ao contemplar o projeto da Casa do Egresso, que tem seu olhar voltado para aqueles que, muitas vezes, são excluídos pela sociedade. "Para a Conferência dos Bispos é uma alegria poder contemplar aquilo que o Papa Francisco chama de 'Igreja samaritana'. Nós conhecemos a Parábola do Samaritano: alguns passam perto das vítimas da sociedade e se desviam do caminho. O samaritano é aquele que se inclina sobre a dor do ser humano e cura suas feridas. Celebrar a apresentação desta obra é celebrar a Igreja samaritana. É a Igreja, é a sociedade que quer tocar nas feridas, quer tocar a vida destes nossos irmãos que, às vezes, não têm voz, não têm vez, não têm sua dignidade respeitada. Muitos destes nossos irmãos que serão acolhidos nessa casa, recém saídos de um presídio, não são olhados pela sociedade. Na maioria das vezes, são descartados. Aqui, poderão encontrar acolhida, poderão encontrar alguém que cure suas feridas. Essa é a missão da Igreja, nos dias de hoje: curar as feridas de quem ninguém quer curar. A CNBB louva esta iniciativa e agradece este bem que é feito na Diocese de Criciúma, por meio desse projeto", destacou padre Fernando.

Segundo o secretário executivo para a Campanha da Fraternidade e membro do Conselho Gestor do Fundo Nacional de Solidariedade da CNBB, existem outras iniciativas similares no Brasil, mas esta é pioneira com o acompanhamento tão próximo de uma diocese. Por duas vezes, a CNBB, por meio do Fundo Nacional de Solidariedade, destinou recursos para as obras da casa: na primeira vez, para a parte hidráulica da edificação; na segunda, auxiliou na aquisição de móveis.

"Todos os anos, no Domingo de Ramos, vocês recebem um envelope e colocam o fruto da Quaresma. Todos os envelopes do Brasil se reúnem e, destes, colhe-se uma pequena colaboração. Hoje, aqui em Criciúma. Amanhã, em Manaus. Depois de amanhã, no Maranhão, no Mato Grosso. E a Igreja se alegra porque, em cada lugar, o bem pode ser feito. É uma alegria! Trago essa mensagem de Dom Leonardo e de Dom Sérgio que, de fato, Deus abençoe muito tudo que será feito nesse lugar. Muito obrigado e parabéns", disse padre Luís Fernando aos presentes na missa.

 
Fundo Nacional de Solidariedade auxilia diversas iniciativas por todo o Brasil

"O Fundo Nacional de Solidariedade é uma iniciativa da Igreja no Brasil onde acontece a comunhão dos bens dos fiéis no período da Quaresma. Todos os anos, no Domingo de Ramos, é feita uma coleta em todas as missas celebradas nas comunidades paroquiais e, desse valor arrecadado, 60% fica na Diocese, e é chamado de Fundo Diocesano de Solidariedade. O Bispo e o seu Conselho vão olhar para as realidades da sua Diocese e procurar fazer encaminhamentos, sendo que 40% desse valor total é encaminhado para a sede da CNBB, em Brasília. Lá nós recebemos várias iniciativas de projetos, que são auditados pela CNBB, assistentes sociais, contabilistas, e escolhemos alguns para ajudar. Ajudamos uma média de 200 a 250 projetos por ano, somando um valor de, mais ou menos, 6 milhões de reais", explica o secretário.

De acordo com padre Luís Fernando, o FNS, no ano de 2018, terá uma particularidade. "Estamos tendo o ingresso de muitos venezuelanos pelo Norte do Brasil, principalmente pelo Estado de Roraima, e o poder público, atualmente, não tem condições de ajudar tantos imigrantes. Foi feita uma proposta durante a Assembleia Geral da CNBB, em Aparecida, de que 40% desse valor total que vai para Brasília, neste ano seja destinado para a causa dos venezuelanos. Houve votação unânime dos bispos apoiando essa iniciativa, porque sabemos como é urgente essa causa lá. Sempre é o fruto daquela espiritualidade quaresmal que se materializa na comunhão dos bens e pode ajudar tantos projetos na Igreja do Brasil. De norte a sul, temos ajudado muitos projetos", pontua o presbítero.  

Projeto surgiu depois de trabalho com moradores de rua

Para que o Serviço de Pastoral Carcerária (SEPASC) encaminhe as atividades da Casa, que conta com 32 leitos para egressos masculinos por até três meses, ainda será elaborado um regimento e conduzida a formação da equipe técnica. Conforme o tesoureiro do SEPASC, Pedro Manoel da Silva, o objetivo é reinserir na sociedade pessoas transformadas através do aconselhamento espiritual e psicológico, assistência social e jurídica, promovendo o resgate da auto-estima dos acolhidos.

"Dizem que todo projeto, para que se realize, tem que partir do coração de Deus e passar pelo coração do homem. E foi isso que aconteceu. Partiu de uma emoção interior quando servíamos aqueles mendigos na rua, quando levávamos alimento e começávamos a conversar com eles sobre o que os havia levado a caírem nessa vida de rua. Histórias comoventes, pessoas que não conseguiam se superar por falta de assistência da própria comunidade, muitas vezes, pessoas com histórias até bonitas, que carregavam a bíblia no fundo da mochila. Descobrimos que muitos deles eram ex-detentos, porque o Estado não os preparava antes de pô-los em liberdade. Muitos já tinham perdido contato com a família, não tinham dinheiro no bolso, nem documento. Para onde iriam? Para as ruas. E quando chegava o inverno bravo, muitos deles confessavam que cometiam pequenos delitos para ter motivos de ir presos, para ter comida e uma cama para dormir. Foi por aí, comovendo o coração desse grupo, ao qual está a frente padre Marcos, que resolvemos abraçar esse projeto. Cada tijolinho colocado nessa obra foi cada um de vocês que nos ajudaram. Somos gratos a cada um e àqueles que não puderam estar presentes também", afirmou Silva.

O padre Marcos Henrique Ferreira, discreto durante toda a caminhada, fez questão de agradecer a todos que colaboraram e deu um obrigado especial. "Tenho uma gratidão muito grande pela Justiça Federal, pois aquelas pessoas que cumprem penas colaboraram com quase 45% da construção dessa casa. Para pintá-la, seriam 35 mil reais, e não gastamos um centavo. Esta casa foi pintada por eles. Agradeço muito a todos de coração. A casa estará aberta para visitação".

Prefeito de Criciúma parabeniza iniciativa

Entre as autoridades presentes, o prefeito de Criciúma, Clésio Salvaro, parabenizou a equipe de voluntários do projeto e seu idealizador. "É uma obra de muitas mãos. Muitos participaram e colaboraram, mas tinha que ter alguém que estivesse presente para fazer a frente. Sei o quanto padre Marquinhos se envolveu, trabalhou e lutou por isso. Estamos presenciando o Evangelho vivo, que sai da Palavra e está materializado nesta obra que vai buscar a ressocialização, aquilo que o Estado não consegue oferecer àqueles apenados que cumprem pena", pontuou o prefeito, que recordou iniciativas do governo municipal por meio de programas que oportunizam trabalho e renda aos apenados do regime semi aberto. Segundo ele, muitos, após cumprirem suas penas, são contratados pelo Município. O Prefeito falou ainda da importância da relação entre Poder Público, Igreja e família, especialmente quando esta última se encontra desestruturada. "Parabenizo muito padre Marcos por esta obra no bairro Anita Garibaldi, um bairro que também sei que está muito distante do alcance social do poder público. Uma obra extraordinária que será merecedora de todos os nossos aplausos, porque aqui vai dar um caminho àqueles que cumpriram suas penas".

Fotos: Bibiana Pignatel e Nathany Marques - Pascom Catedral São José

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