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6. O Serviço em Defesa da Vida

118. Quem faz a experiência da alegria pascal no encontro com Deus e entra no caminho da santidade, quem se encanta com a comunhão eclesial e se aprofunda no conhecimento das verdades da fé, não pode ficar com essa graça só pra si. Sente-se motivado à missão. Por isso, é da essência da Igreja ser ao mesmo tempo comunhão e missão. A missão dos discípulos é o serviço à vida plena.

119. A Igreja no Brasil sabe que “nossos povos não querem andar pelas sombras da morte. Têm sede de vida e felicidade em Cristo”. Ela proclama: “as condições de vida de muitos abandonados, excluídos e ignorados em sua miséria e dor, contradizem o projeto do Pai e desafiam os missionários ao compromisso com a cultura da vida”. Ao longo de uma história de solidariedade e compromisso com as vítimas das formas de destruição da vida, a Igreja se reconhece servidora do Deus da Vida (cf. CNBB, DGAE 2011-2015, n. 66).

6.1. O Anúncio e o Profetismo

120. “A Igreja, comunidade de fé, esperança e caridade é, em si mesma, comunidade missionária. O processo da vivência da fé, exemplificado no despertar pedagógico dos discípulos de Emaús (Lc 24,13-35), da samaritana e de seus conterrâneos (Jo 4,11-42) com seus consequentes compromissos, sejam hoje inspiradores da prática eclesial de cada agente de pastoral” (DAESC 2009-2011, n. 19). Ser uma Igreja missionária é ser voltada decididamente para fora, uma Igreja que deve aprender a conjugar o verbo “ir”: “Ide pelo mundo…” (Mt 28,20). A Igreja dos primeiros cristãos é fortemente marcada pelo dinamismo missionário, centrado na mesma missão de Jesus, no anúncio do Reino: “Quanto a nós, não podemos nos calar sobre o que vimos e ouvimos” (At 4,20).

121. Num mundo marcado por tanta exclusão e preconceito, marginalização e injustiça, a Igreja deve marcar diferença por sua profecia, sua crítica aos ídolos e sinais do antirreino. A dimensão profética aparece na prática dos primeiros cristãos, de forma clara e corajosa, através do anúncio destemido da Palavra de Deus e no testemunho vivo da presença de Deus nas realidades do dia a dia. O anúncio da Palavra, as denúncias contra a vida e as perseguições, davam a convicção de estarem vivendo a mesma missão profética de Jesus.

122. Os que anunciavam a Palavra e denunciavam todo tipo de agressão à vida eram líderes pobres e livres, que carregavam as alegrias e as dores uns dos outros. “A tarefa fundamental para a qual Cristo envia seus discípulos é o anúncio da Boa Nova, isto é, a evangelização” (cf. Mt 16,15-18). Citando o papa Bento XVI, em sua primeira encíclica Deus caritas est, o Documento de Aparecida diz: “A Igreja ‘não pode nem deve colocar-se à margem na luta pela justiça’ (DCE, n. 28). Ela colabora purificando a razão de todos os elementos que ofuscam e impedem a realização de uma libertação integral” (DAp, n. 385).

123. Contemplando os diversos rostos de sofredores, o discípulo missionário enxerga nele o rosto de seu Senhor: chagado, destroçado, flagelado. Não se cala diante da vida impedida de nascer seja por decisão individual, seja pela legalização e despenalização do aborto. Não se cala igualmente diante da vida sem alimentação, casa, terra, trabalho, educação, saúde, lazer, liberdade, esperança e fé. Ele se compromete com um mundo onde seja reconhecido o direito a nascer, crescer, constituir família; num mundo onde o perdão seja a regra; a reconciliação, meta de todos. Daí o “ratificar e potencializar a opção preferencial pelos pobres”, “implícita na fé cristológica”, e que deverá “atravessar todas as suas estruturas e prioridades pastorais” (cf. CNBB, DGAE 2011-2015, n. 69).

6.2. O Testemunho e o Serviço

124. Consciente das urgências da miséria e da exclusão, o discípulo missionário não restringe sua solidariedade ao gesto da doação caritativa. A doação para a sobrevivência não abrange a totalidade da opção pelos pobres. Esta implica convívio, relacionamento fraterno, atenção, escuta, acompanhamento nas dificuldades, buscando, a partir dos próprios pobres, a mudança de sua situação. Os pobres e excluídos são sujeitos da evangelização e da promoção humana integral. A Igreja reconhece a importância da atuação no mundo da política e incentiva os leigos/as à participação efetiva na construção de um mundo justo, fraterno e solidário (cf. CNBB, DGAE 2011-2015, n. 71).

125. Uma Igreja comprometida com a vida é ao mesmo tempo comprometida com a causa ecológica, voltada não apenas para o meio ambiente, mas para o ambiente inteiro, inserindo o ser humano dentro da natureza como parte dela. Nesta dimensão, o grande desafio vem da pobreza e da miséria. Estes são, sem dúvida, os principais problemas ecológicos da humanidade, pois são produtos do modo como está organizada a sociedade, ou seja, como o “ambiente” está organizado. Com o olhar da fé e a prática da caridade nesta Igreja de Cristo, podemos acreditar que é possível criar uma sociedade sem exclusões e divisões, que respeite os direitos fundamentais do ser humano: trabalho, moradia, saúde, alimentação, lazer, educação... com uma política de serviço e não de corrupções e nepotismos, uma economia de bens disponíveis para todos como Deus quer.

126. Um dos modos de a Igreja realizar sua missão no mundo é manifestar sua solidariedade com os pobres e marginalizados, pois o anúncio não se faz apenas de palavras, mas primeiramente no serviço aos que mais necessitam. Os discípulos missionários são testemunhas de Jesus Cristo no meio do povo, junto aos pobres, aos pequenos, levando vida, dignidade, misericórdia. O Documento de Aparecida propõe e recomenda uma renovada pastoral urbana que “desenvolva uma espiritualidade da gratidão, da misericórdia, da solidariedade fraterna, atitudes próprias de quem ama desinteressadamente e sem pedir recompensa” (DAp 517c). A grandeza desta Igreja está no seu compromisso com a vida, sobre a qual intervém de modo firme e militante, alimentada nas raízes espirituais das comunidades primitivas. “O antigo e perene nome da paz é a justiça. Mas hoje, a paz tem também um nome novo, que é solidariedade. Nome, aliás, sócio-político-econômico da caridade. A única versão não hipócrita da civilização do amor” (D. Pedro Casaldáliga).