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2. Igreja, lugar de Santidade

77. Ao falar da vocação dos discípulos missionários, o Documento de Aparecida nos convida à santidade. “Assim como é santo o Deus que os chamou, também vocês tornem-se santos em todo comportamento, porque a Escritura diz: ‘sejam santos, porque eu sou santo’” (1Pd 1,15-16). E santidade “não é fuga para o intimismo ou para o individualismo religioso, tampouco abandono da realidade urgente dos grandes problemas econômicos, sociais e políticos da América Latina e do mundo, e muito menos fuga da realidade para um mundo exclusivamente espiritual” (DAp, n. 148).

78. A verdadeira santidade se fundamenta numa experiência religiosa e profunda de Deus, num encontro pessoal com Jesus Cristo, numa conversão total da vida ao Evangelho, numa disposição plena para o anúncio e o testemunho do Evangelho (DAp, n. 226a). A partir da vivência da alegria e da santidade, experimentadas como graça que vem de Deus Pai no seguimento de Jesus e na unção do Espírito Santo, os cristãos católicos saberão enfrentar os grandes desafios.

2.1. A Mística e a Celebração

79. Marcada pela santidade, a Igreja será profundamente mística. Por isso, vive mais da inspiração que da intuição; mais do carisma que do poder; mais do amor que da lei; mais da comunhão que da organização; mais da comunidade, do que da instituição. É por isso uma Igreja que se deixa conduzir pelos mistérios divinos com a força do Espírito Santo e, assim, conduzir a pessoa para o encontro com Cristo. É uma Igreja discípula de Jesus, que vive da escuta da Palavra, ao mesmo tempo em que louva e dá ação de graças pela chegada do Reino, o que supõe uma Igreja de alegria e gratuidade, de celebração e oração.

80. O povo de Israel tinha consciência de que a aliança com Deus o constituía “povo de sacerdotes” (Ex 19,6). No Novo Testamento, o povo louva a Cristo porque ele fez de “homens e mulheres de todas as raças, tribos e línguas, um povo de sacerdotes” (Ap 5,9-10). As Igrejas primitivas tinham a clara consciência de que, pelo batismo, toda a assembleia participava do ministério litúrgico. O modo como Jesus e as primeiras comunidades cristãs celebravam, nos indicam que é do mistério pascal e das raízes da nossa realidade que deve brotar a celebração da vida. “Queremos ser uma Igreja celebrativa, reunida na fé, perseverante no ouvir e no praticar a Palavra, na Comunhão Fraterna, no Partir do Pão, experimentando a presença viva de Cristo no meio de nós” (DAESC 2009-2011, n. 28).

2.2. A imagem da Trindade

81. Nossa Igreja nasce do coração da Trindade: “É o povo reunido na unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (LG 4). A Igreja vem da Trindade, vive na Trindade e vai para a Trindade. “O mistério da Trindade é a fonte, o modelo e a meta do mistério da Igreja” (DAp 155). Este modelo de comunidade é uma crítica a todas as relações desumanas, opressoras e exploradoras, injustas e egoístas que existem em nossa sociedade, que ferem a dignidade e santidade dos filhos e filhas de Deus e geram estruturas de pecado e morte. Por isso, a Trindade é modelo para nossas comunidades serem a Igreja que Deus quer em todo o território desta Diocese, edificada nas relações de amor e unidade, como filhas e filhos “criados à imagem e semelhança do próprio Deus”.

2.3. O Seguimento de Jesus

82. Nossa espiritualidade é cristã porque se fundamenta no seguimento de Jesus, Filho de Deus que se fez carne. Por sua palavra, sua vida e atividade pública, sua morte e sua ressurreição nos coloca em comunhão com Deus. “No seguimento de Jesus Cristo, aprendemos e praticamos as bem-aventuranças do Reino, o estilo de vida do próprio Jesus: seu amor e obediência filial ao Pai, sua compaixão entranhável frente à dor humana, sua proximidade aos pobres e aos pequenos, sua fidelidade à missão encomendada, seu amor serviçal até a doação de sua vida. Hoje, contemplamos a Jesus Cristo tal como os Evangelhos nos transmitiram para conhecer o que Ele fez e para discernir o que nós devemos fazer nas atuais circunstâncias” (DAp 139).

83. A espiritualidade cristã é a espiritualidade de Jesus segundo o seu Espírito. O Deus de Jesus é o Deus do Reino, e a opção de Jesus é o Reino de Deus. Assim, sua opção deverá ser a nossa opção, suas atitudes, nossas atitudes. O seguimento a Jesus implica assumir a sua causa que é o Reino, que tem como Mestre e Senhor Jesus de Nazaré, Filho de Deus vivo, que se faz carne na história, para assumir a realidade humana tornando-se um cidadão de seu povo.

2.4. No exemplo de Maria: discípula missionária

84. A máxima realização da existência cristã como um viver trinitário de “filhos no Filho” nos é dada na Virgem Maria que, através de sua fé (cf. Lc 1,45) e obediência à vontade de Deus (cf. Lc 1,38), assim como por sua constante meditação da Palavra e das ações de Jesus (cf. Lc 2,19.51), é a discípula mais perfeita do Senhor. Mulher livre e forte, aparece no Evangelho como a primeira seguidora de Cristo.

85. A Virgem de Nazaré teve uma missão única na história da salvação, concebendo, educando e acompanhando seu filho até seu sacrifício definitivo. Desde a cruz Jesus Cristo confiou a seus discípulos, representados por João, o dom da maternidade de Maria, que nasce diretamente da hora pascal de Cristo: “E desse momento em diante, o discípulo a recebeu em sua casa” (Jo 19,27). Perseverando junto aos apóstolos à espera do Espírito Santo (cf. At 1,13-14), ela cooperou com o nascimento da Igreja missionária, imprimindo-lhe um selo mariano que a identifica profundamente.

86. Como na família humana, a Igreja-família é gerada ao redor de uma mãe, que confere “alma” e ternura à convivência familiar. Maria, Mãe da Igreja, é nosso modelo e construtora de comunhão. Um dos eventos fundamentais da Igreja é quando o “sim” brotou de Maria. Ela atrai multidões à comunhão com Jesus e sua Igreja, como experimentamos muitas vezes nos santuários marianos.

87. Maria é a grande missionária, continuadora da missão de seu Filho e formadora de missionários. Com alegria constatamos que ela faz parte do caminhar de nosso povo. Os diversos nomes, grutas, santuários, Igrejas a ela dedicados espalhados por toda parte, testemunham a presença de Maria próxima às pessoas e, ao mesmo tempo, manifestam a fé e a confiança que os devotos sentem por ela.

88. Ela, que “guardava todas as coisas meditando em seu coração”(Lc 2,19), ensina-nos o primado da escuta da Palavra na vida do discípulo missionário.

89. Com os olhos postos em seus filhos e em suas necessidades, como em Caná da Galileia, Maria ajuda a manter vivas as atitudes de atenção, de serviço, de entrega e de gratuidade que devem distinguir os discípulos de seu Filho. Indica, além do mais, qual é a pedagogia para que todos, em cada comunidade cristã, “sintam-se como em sua casa”. Cria comunhão e educa para um estilo de vida compartilhada e solidária, em fraternidade, em atenção e acolhida do outro, especialmente se é pobre ou necessitado. Em nossas comunidades, sua forte presença tem enriquecido e seguirá enriquecendo a dimensão materna da Igreja e sua atitude acolhedora, que a converte em “casa e escola da comunhão” e em espaço espiritual que prepara para a missão.