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Silenciar para ouvir a Palavra

Outro dia me surpreendi ao constantar que havia ficado por mais de meia hora ao telefone. Não que precisasse. Na verdade, a gente fala demais mesmo! E falando demais, acabamos por ouvir bem menos do que deveríamos.


A maturidade, disse o poeta, “mora na escuta”. É verdade. Vocês já observaram que geralmente os mais sábios são aqueles que menos falam? Se observarmos bem, veremos que nosso próprio corpo nos convida mais à escuta do que à palavra: Temos uma boca e dois ouvidos... Mas por que será que falamos tanto? Porque temos tanta dificuldade para ouvir? Simples causa e consequência?


Toda relação supõe diálogo. E o diálogo, por sua vez, se constrói em meio a silêncios e palavras. Diz-se inclusive, que nunca a comunicação é tão profunda, como quando não se diz nada. O silêncio, é o útero da palavra! Palavras ditas sem serem pensadas, podem gerar feridas difíceis de cicatrizar!Quando falamos demais, não há como estabeler diálogo. Uma relação que não prime pela escuta é semelhante a uma árvore sem raiz: é frágil demais, não se sustenta.


Há muitas pessoas acompanhadas, rodeadas de gente, que sofrem de solidão. Como diz Rubem Alves, “o estar juntos não quer dizer comunhão. O estar juntos, frequentemente, é uma forma terrível de solidão, um artifício para evitar o contato com nós mesmos”. As pessoas falam, falam, mas não se escutam. Especulam, esbravejam, mas tem pouca capacidade em escutar e entender o que o outro quer dizer... Isso sem esquecer, que o silêncio é também indispensável para fazermos um verdadeiro encontro com nós mesmos.


O que dissemos, vale também para nossa vida espiritual: Vamos rezar, mas esquecemos que a oração, como ensina Santa Tereza, é, na verdade, um diálogo com aquele que sabemos que nos ama. Temos um Deus que dialoga conosco. Um Deus que no silêncio, fala constantemente ao nosso coração.


Neste mês de setembro, a Igreja nos convida a repensarmos o valor que damos à Palavra de Deus. Como podemos dizer que temos uma relação verdadeira com Deus, se não encontramos tempo para escutá-lo?


Ao celebrarmos o mês da bíblia, somos chamados também a redescobrir o valor da escuta: Só ouvir não basta. É preciso escutar. É preciso deixar que a Palavra de Deus ecoe e faça morada em nós, a fim de podermos dar os frutos que Ele espera.


A verdadeira Palavra de Deus é o seu próprio Filho: Jesus Cristo! Nele, Deus veio ao nosso encontro comunicando-se a si mesmo: Não falou algo de si. Antes, deu-se a si por inteiro. São João da Cruz diz que “Tudo o que Deus tinha a falar, Ele já o falou em seu Filho Jesus.


Precisamos entender que a Palavra verdadeira de que realmente precisamos é a Escritura Sagrada. Nela, Jesus se revela à nós. Jesus é a Palavra feita carne. A Palavra que não volta atrás. A Palavra que não engana. A Palavra que preenche o nosso silêncio, e que supera infinitamente o nosso vão palavrório.


O convite à escutarmos mais a Palavra de Deus, é também um convite a falarmos menos, justamente, para que possamos escutar Deus falar...

 

Fagner José Wilman
Psicólogo e Coordenador do CPP da Paróquia São Donato


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