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Não fostes vós que me escolhestes...

 

“Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu quem vos escolhi e vos designei para dardes fruto e para que o vosso fruto permaneça.” (Jo 15,16a)
 
 
Sem. Maxssuél da Rosa Mendonça
Seminário Teológico Bom Pastor - Florianópolis
 
 Caríssimos, com alegrias e esperanças estamos iniciando mais um mês!
 
O mês de agosto não é, como muitos pensam, o mês das superstições, das crendices populares, do desgosto, mas, para nós cristãos é o mês em que a Igreja nos convida a refletir de forma mais intensa sobre o chamado de Deus.
 
Providencialmente as sementes das vocações estão brotando em nossa Diocese: o número de seminaristas tem aumentado gradativamente, novas lideranças têm surgido em nossas paróquias, a fidelidade, a organização e o zelo de muitos padres têm chamado atenção. Tudo isso é visível e é resultado de uma vivência mais orante, de uma espiritualidade mais profunda, presente e incentivada a todos nós que formamos o povo de Deus na Diocese de Criciúma. Sem dúvidas, as vocações são uma resposta de Deus à uma comunidade que reza!
 
Durante este mês das Vocações, a cada final de semana voltaremos nossa atenção à uma vocação específica: sacerdotal, matrimonial (familiar), religiosa e leiga; não esquecendo obviamente, da nossa vocação universal: todos nós somos chamados à santidade.
 
Ao falar em “santidade”, tenho a impressão que esse tem sido um conceito descartado ou mal entendido por muitos. Quem é o homem santo? A mulher santa? E o jovem santo? Santo ou santa é aquele que é justo e, para ser justo, é preciso fazer a vontade de Deus. Por isso, ser santo hoje, ser santa hoje é saber ouvir a palavra de Deus e praticá-la! Essa é a nossa vocação, esse é o chamado que Deus nos faz: ser santo na condição que assumirmos para nossa vida. Seja como casados ou solteiros, lideranças engajadas ou simplesmente membros do Corpo de Cristo, Deus espera de nós uma resposta; não qualquer resposta, mas uma resposta de amor, ou como temos aprendido: “um sim para cada dia”.
 
Nesta breve reflexão, quero me ater às vocações sacerdotais. Primeiro, porque é o nosso “chão”; segundo, porque é o sonho de muitos seminaristas como eu dizer sim a Deus como padre para servirmos a Igreja onde for preciso; depois, é a nossa alegria poder falar de uma experiência de amizade tão sincera e forte que estreitamos com Deus, nosso primeiro e melhor amigo.
 
Diz o Papa Bento XVI que “o sacerdócio é o amor do Coração de Jesus”. Particularmente, acredito que esse seja o melhor caminho para entendermos o que é a vocação sacerdotal senão um derramamento do amor de Deus por nossa humanidade.
 
“Não fostes vós que me escolhestes, mas eu vos escolhi...”. A cada dia que passa, essa vai sendo a única certeza que vai sobrevivendo e se mantendo em nossa vida de vocacionados: Deus nos chama e nos escolhe por primeiro (“Desde o ventre materno eu te conheci...” Jr 1,5). Provavelmente surjam algumas dúvidas: Por que homens tão “fracos”? Pessoas tão limitadas? Jovens tão indecisos? Há tantos colegas mais preparados, desinibidos... ou: O Senhor tem certeza que foi a mim que chamou, será que não se enganou.
 
Tentativas de esquivos aparecerão, porém confirmam que realmente a vocação é mistério de Deus e não apenas mistério, mas graça e misericórdia. Somente um Deus misericordioso poderia confiar plenamente em nossa humanidade. O interessante é que esse chamado vai acontecendo, situações vão surgindo, sinais vão mostrando que Deus está nos chamando e que não adianta disfarçar. Mas como saber? Aprendi com meu orientador espiritual que um dos frutos do discernimento é a paz, ou seja, como saber se Deus está me chamando para ser padre? Percebendo se aquilo que faço na Igreja, na atividade pastoral, na ajuda aos que sofrem me traz paz. Se trouxer paz é sinal de uma vocação específica, é sinal do sacerdócio e esse sinal precisa ser rezado, cultivado, “podado”. Eis aí a grande orientação: encontrar a resposta através de uma vida de oração, de uma vida de intimidade com Deus.
 
Nessas últimas férias, visitando alguns parentes evangélicos, deparei-me com algumas perguntas que nos ajudarão na presente reflexão. Talvez sejam também o questionamento de muitos jovens ou as dúvidas de muitas lideranças: Como vocês querem ser padres se o padre não pode casar? Por que viver o celibato? Aquele padre “tá sempre de mau humor”, “é grosseiro” porque não casou, coitado, está na vocação errada!
 
Comumente ouvimos manifestações como essas. Com certeza, o coração de toda pessoa foi feito para amar, aliás, Emmanuel Munier, filósofo francês do século XX, numa reflexão muito interessante sobre o amor, diz que nos tornamos pessoas somente quando amamos (“amo ergo sum”). Esta verdade, a nossa fé confirma; todos nascemos do amor e para o amor; não somos apenas união de espermatozóide e óvulo, mas sonho e fruto do amor de Deus. Quem é chamado a ser padre é também chamado a exercitar e expressar o amor em suas atividades sacerdotais, seja em acolher as pessoas, nos gestos, nas orientações, nas visitas aos doentes, no zelo com os mais pobres, numa fala e num olhar misericordioso para com todas as pessoas; esse é o amor do Coração de Jesus!
 
Viver a castidade, consagrar a vida, dizer sim a Deus não são coisas fáceis, nem na compreensão e nem na prática, ainda mais no modelo atual de sociedade, mas Jesus prometeu duas coisas importantes e consoladoras: que estaria junto (“Eu estarei convosco todos os dias, até o fim dos tempos” Mt 28,20), e que não seria fácil segui-lo (“Se alguém quiser seguir-me, tome a sua Cruz...” Lc 9,23). Por isso, aprendi este pensamento e levo comigo: se não tem cruz, não é de Jesus!
 
O celibato não é uma imposição, mas deve ser uma consequência madura e consciente de uma opção que fazemos com Deus, por Ele e pela Igreja. É como se fosse a passagem de uma “vida de sentidos” para uma “vida de fé”. Quem entende isso? Somente quem tem fé, quem tem amizade com Deus!
 
O versículo termina dizendo “e vos designei para dardes frutos e que o vosso fruto permaneça”, ou seja, todos os complexos, os medos, as inseguranças que temos não impedirão o projeto que Deus tem e que nos chama a colaborar, isto é, se ele chama é porque acredita que há “frutos” naquele que foi chamado para alimentar a fome do povo, e os frutos são de acordo com os sinais dos tempos, são frutos que correspondem com as necessidades da atual evangelização. Interessante que Jesus diz “que o vosso fruto permaneça” e não “que o vosso fruto apareça”, isto é, somente na dimensão da humildade é que se entende o que Deus quer. Em outras palavras, somente quem é humilde consegue discernir em meio às diversas vozes e identificar o chamado de Deus.
 
Deus não exige nada do que não somos capazes. Para nos orientar, deixou um bom advogado, o Espírito Santo; como modelo de vocação, deixou-nos uma Mãe, Maria; como alimento para jornada, a Eucaristia; e como lugar para trabalhar, a Igreja.
 
Termino te fazendo um convite, meu irmão: Será que Deus não te chama para ser padre? Será que a tua felicidade não estará em servir os irmãos e irmãs como padre? Você que é jovem agraciado com tantos dons, tantos talentos, será que Deus não está esperando algo a mais de você? Pense nisso!
 
Rezemos juntos e que o Espírito nos ilumine.

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